Quando vovô voltou da caçada
com uma carga de cambucás maduros,
vovó ficou admirada:
“nunca ouvi falar de quem sai para apanhar
os frutos da fruteira
com espingarda cartucheira”.
Quando vovô voltou da caçada
com uma carga de cambucás maduros,
vovó ficou admirada:
“nunca ouvi falar de quem sai para apanhar
os frutos da fruteira
com espingarda cartucheira”.
Igual ao minúsculo bem-te-vi
que enfrenta e afugenta o carcará,
a menina Malala Yousafzai
enfrentou a barbárie
e vai pintando de luz do sol
a ignorância sob a escuridão
nas terras do Paquistão.
Do índio Tupinambá
ficaram os nomes
pregados aos lugares:
Itaguá, Marambaia,
Saquarema, Ubatuba,
Bertioga, Maranduba...
Ficaram suas palavras
nas asas das aves:
sabiá, saíra, bacurau,
inhambu, tié, uru...
Deixaram as armadilhas
com mil anos de sabedorias:
covo, mundéu, jirau,
cica, arapuca...
Suspenderam nos ramos
Das árvores suas iguarias
bacupari, cambucá,
caju, abiu, jabuticaba,
goiaba, sapoti, araçá...
Perdida só a gastronomia
da rude antropofagia.
A primeira notícia
de um dia ensolarado
mal brilhou no céu
e os cantos dos galos
começaram a divulgá-la
para todos os moradores
da Praia da Fortaleza:
Bem forte, no quintal de Vovó
Eugênia;
à distância, na casa de Seu
Dario;
longínquo, no terreiro de Tio
Clemente.
E quase inaudível, tão
baixinho
que foi impossível ouvir até o
fim,
após ter atravessado três
décadas,
cantou o galo de Seu Joaquim.
Nos ventos da frente fria
o bananal de meu avô
fazia uma louca coreografia.
Notícia boa
A chuva de ouro
Não cai à toa.
Urgente:
Parapentistas e
anjos caídos procuram
correntes de ar
ascendente.
No virar das ampulhetas,
entregues ao sono,
Lagartas sonham borboletas.
O segredo pra
fazer música bonita
é sair de casa e
andejar
pra ver e ouvir
as obras de Deus
e dos homens:
o pescador que
retorna da pescaria,
um carinho de
namorada,
um sol que se
anuncia
no vermelho da
alvorada
e mais um monte
de lições de
rejuvenescer.
Que utopia rima com sua poesia?
cidadão, cidadã, cidadania...
Que filosofia rima com sua poesia?
sabe, saber, sabedoria...
Que tipo de energia rima com sua poesia?
harmonia, sintonia, melodia...
Que ideologia rima com sua poesia?
cidadão, cidadã, cidadania...
harmonia, sintonia, melodia...
melodia, empatia, cortesia...
democracia, utopia, poesia,
Leila, Laila,
Suleiman, Salomão,
Daoud, Davi,
Ibrahim, Abraão!
Cadê sua irmã,
Cadê seu irmão?
Cadê sua irmã,
Cadê seu irmão?
São tantas, tantas crianças
Sem pais e sem casa,
Sem jogos, sem danças,
Sem paz e sem Gaza
Josef, Youssef,
Zahra, Sara,
Mariam, Miriã,
Cadê seu irmão,
Cadê sua irmã?
Cadê seu irmão,
Cadê sua irmã?
São apenas crianças,
Sem músicas e sem pão,
São somente crianças
Sem paz e sem chão.
Shalom, salaam
Cadê seu irmão
Cadê sua irmã?
Shalom, salaam, Shalom, salaam, Shalom, salaam...
No baú de brinquedos tem
Caneta mágica pa fazer lição,
carretéis de linhas de pipa,
broche do time campeão.
Bola de futebol,
um boneco sem pé,
um barco guardado,
esperando subir a maré.
bússola de rumo certo,
cinto de mil utilidades,
caderno com os nomes
de todas as amizades.
mapa de tesouro,
avião para voar sem brevê
manual de dança indígena
pa fazer chover.
E lá no fundo do baú
Tem um relógio quebrado,
mas que não impedirá
o tempo de passar.
É assim que tem que ser,
O Tempo vai passar
A criança vai crescer
E o inverno chegará
É assim que tem que ser,
Outras crianças virão,
Bem-vinda será a primavera,
Depois vem o verão
Que crime praticou o caiçara
para que Seu doutor
ordenasse a demolição
de seu ranchinho de pescador?
Um ranchinho de madeira
no cantinho da praia
à sombra da amendoeira
que o pescador herdou
que o pescador herdou
de seu finado avô,
que de toda Ubatuba
foi um dos poucos que restou.
Foi por causa de sua arte
De a rede costurar?
Ou Foi culpa da perícia
no ofício de pescar?
Foi por ser talentoso
E hábil em navegar,
Ou Foi pela cultura caiçara
que teima em praticar?
E agora me digam,
seu rancho vindo ao chão,
onde guardará sua canoa,
onde abrigará seu coração?
as árvores eram conhecidas
como velhas, velhas amigas
Era medido pelo verbo amar
pelo verbo partilhar.
Tinha mais pássaros no ar,
mais crianças brincando,
mais peixes no mar,
mais poesia e epopeias
mais bichos nas matas
gritando onomatopeias.
Mais cantigas de pássaros,
Cada pássaro com seu canto,
cada vivente com seu encanto.
Os seres nos conheciam
como velhos amigos
naqueles tempos, tempos antigos.
Leila, Laila,
Suleiman, Salomão,
Daoud, Davi,
Ibrahim, Abraão!
Cadê sua irmã,
Cadê seu irmão?
Cadê sua irmã,
Cadê seu irmão?
São tantas, tantas crianças
Sem pais e sem casa,
Sem jogos, sem danças,
Sem paz e sem Gaza
Josef, Youssef,
Zahra, Sara,
Mariam, Miriã,
Cadê seu irmão,
Cadê sua irmã?
Cadê seu irmão,
Cadê sua irmã?
São apenas crianças,
Sem músicas e sem pão,
São somente crianças
Sem paz e sem chão.
Shalom, salaã
Cadê seu irmão
Cadê sua irmã?
Shalom, salaã, Shalom, salaã, Shalom, salaã...
Que ideologia rima com sua poesia?
sabedoria, poesia, poesia
Que utopia rima com sua poesia?
democracia, poesia, poesia.
Que filosofia rima com sua poesia?
empatia, poesia, poesia.
Que tipo de energia acende sua poesia?
cidadania, poesia, poesia, ecologia,
democracia, cidadania, poesia, poesia, poesia...
E, e, e, enguia, enguiá,
é preciso ser amigo do mar!
e Aprender o que aas águas
tem a ensinar
pa saber os nomes dos seres
e outras riquezas
dos rasos e profundezas.
E, e, e, espadarte, viver é uma arte.
Mergulhar até virar anfíbio
E se familiarizar
Com todos os peixes.
eh, eh, eh, emborê,
por favor não nos deixes.
Se tornar caiçara, pescador,
profissional ou amador,
aprender as histórias, cantorias
e no lanço da rede
pescar até poesias.
E, e, e, enguia, enguiá,
é preciso ser amigo do mar.
tubarão-martelo, peixe serra,
tubarão-lixa, peixe-agulha etc.
Peixe-alicate não tem e nem faz falta,
porque as pinças do siri-patola
cortam fios de qualquer bitola.
tira o caranguejo-guaiá da toca.
Depois, é preciso agilidade para
apanhá-lo -
ou tomar um beliscão de sua potente
tenaz...
descole, se for capaz.
de bicho é no chão
e de pássaro é no ar.
Cada qual no seu elemento.
Só não avisaram ao peixe-voador
e ao esquilo-planador.
E onde é lugar de gente?
Pergunte a quem voa de balão,
asa-delta ou parapente.
Bola de futebol,
Caneta mágica para fazer lição,
carretéis de linhas de pipa,
escudo de time campeão.
coleção de figurinhas,
um boneco sem pé,
um pé sem boneco,
mas sem chulé.
bússola para achar o rumo certo,
cinto de mil utilidades,
caderno com os nomes
de mil e uma amizades.
mapa de tesouro,
avião para voar sem brevê
manual de dança indígena
para fazer chover.
mapa para se aventurar
e relógio quebrado -
mas que não impede, ai,
o tempo de passar.
Quem quer pescar
joga a isca no mar
e fica sossegado,
o peixe não pode assustar.
Quem quer pescar
não vai espadanar no mar
ou pesca, ou nada, nada,
coisinha engraçada,
como se África fosse ali
ao alcance de uma braçada.
Avis rara do mar e do ar,
começa a dançar igual tangará
pássaro que dança
quando quer cativar.
cativar, cativou em seguida
voou, voou por aí,
avis rara, essa canção é para ti.
do dia 24 de agosto de 2025,
em Ubatuba e redondezas
a primavera começou,
só porque o sabiá-laranjeira cantou.
Depois, o coral das aves começou
a cantar a animada sinfonia
para alertar toda a criação.
que é tempo de ressurreição
E para a alegria geral,
floresceu até a uvaia do quintal,
O
Tietê nasce na Serra do Mar
e, em vez de buscar o litoral,
corre para o interior.
O Tietê é rio teimoso,
igual pessoa que conheço,
que tendo quem a ame bem perto,
vai longe buscar outro amor.
Três etnias
de três continentes,
de culturas
e motivos diferentes,
marcaram encontro
no litoral do Brasil
e formaram o povo
caiçara.
De que praias de
Portugal?
De que sertões de
Pindorama?
De que aldeia Africana?
São Francisco interceda
pelo quati na árvore e no chão,
pela paca e suas paquitas,
pelo tatu na toca
e, em especial, pelo tatu fora da toca.
São Francisco abençoe
o ouriço-cacheiro e sua aspereza,
o caxinguelê e sua ligeireza
e, também, por seu xará,
Francisco Lopes, caiçara nato,
o popular
bicho-do-mato.
Deus abençoe
meu avô fazendo balaio,
minha avó torrando café,
Maneco Almiro
tocando rabeca,
Tia Aninha e suas flores.
Deus abençoe
a lembrança do sorriso
de Elisabete
no ano de 1976
ou foi 77?
Já sabemos que o ouro não se leva,
mas entra o relógio
que marcaram as boas lembranças,
herança de família.
Entram gente irradiando luz
direto do amor cultivado no coração,
pessoas que o mundo imaginava
vivendo na escuridão.
Também não entram roupas de luxo,
mas são aceitos trajes de casamentos,
roupas de batizados,
e os pés perdidos
de pares de calçados.
:
Bolas de gude,
carretéis de linha de pipa,
espada do Rei Artur,
cinto de mil utilidades,
bússola,
mapa de tesouro,
mágicas só para mandrakes,
avião para vôos transoceânicos
e incontáveis bricabraques.
É preciso ter juízo para saber
que o capim-melado
serve apenas de morada
para o bicho preá
e não se come com torrada.
Já o capim-santo
é santo de casa
que faz o milagre
de dar à gente nervosa
uma cara mais alegre.
E não se engane pelo nome
o capim arranha-gato
arranha gente também.
Aprendi na pele esse fato.
Já vi homem chorar
do cais do porto
até ao pronto-socorro
por causa do veneno do
mangangá.
Ai de quem o fisgar,
ai de quem se
equivocar,
ai de quem se espetar,
porque um dia é do
pescador
outro é do mangangá.
Festival de borboletas
nas flores de Tia Aninha,
o lamento da juriti
prenuncia a melancolia
à espreita no fim do dia
e no oratório
os Santos antigos
dão a impressão
que ainda sofrem muito
as flechadas no peito,
as dores da paixão,
as pedradas do vulgo,
a crucificação.
Dormem as gentes nas tarimbas,
dorme a rede no varal,
dormem as brasas sob as cinzas,
dorme a lenha no quintal,
dorme a cachaça na pipa,
dormem os bichos no curral.
A coruja é o vigia noturno
e dá o sinal de alerta,
uma sombra se esgueira
sob as bananeiras
em direção ao galinheiro,
bambus quebrados,
escarcéu de penas e brados,
galinhas, cães desatinados,
mais alto latiu a espingarda
e um facho foi aceso
para botar ordem na madrugada.
Nenhuma vítima
fora a paz perturbada.
Quando sai pra pescar,
pescador nenhum sabe
as dádivas que o mar dará.
Pode ser um exagero,
como aconteceu com o pescador da Praia Dura:
“Veio tanto peixe como nunca vi na vida.”
E naquele mesmo dia recebeu a visita
das meninas pobrezinhas
que buscavam água e pão,
em companhia de Nossa Senhora de Ubatuba,
a Santa do Sertão.
Uma vez por mês chegava o mascate
que abria seu baú para revelar
cortes de panos, fitas, lenços,
enfeites, roupinhas de crianças,
que toda mulher podia comprar
pela facilidade do crediário
na caderneta do libanês,
que todo mundo tratava por turco.
Um verdadeiro fenício
desempenhando seu ofício.
Os anjos costumam visitar
as capelas simplezinhas,
nas praias isoladas,
de paredes caiadas,
para encontrar seus iguais:
a menina de vestido de chita,
a senhora que fala sozinha
e as criancinhas que riem
com as piscadelas
que os anjos dão
somente para elas.
O que faz os padres
ralharem irritados,
espantando os anjinhos
que fogem assustados.
Quando as gaivotas se reúnem
e voltam para suas ilhas
é sinal que vai soprar a tormenta.
Quando os golfinhos se ajuntam,
desnorteados, à tona d'água,
é preciso procurar porto seguro.
Quando as formigas fazem correição
barranco acima,
é presságio de enxurrada e inundação.
E o que a gente faz quando os jornais
dão notícias de um irmão contra o outro
e de filhos contra os pais?
É bonito ver as árvores debruçadas sobre o mar
atirando ofertas às ondas
que as levam e trazem sob o influxo da maré.
Um bacupari para lá,
um miriguito para cá,
uma coroanha para lá,
um jamelão para cá,
uma lembrança para lá,
uma saudade para cá.
Meu tataravô era um mini fundiário
do atlântico,
dono de um centésimo
das praias de Ubatuba
e todas as manhãs
vistoriava
as garrafas de
náufragos,
estrelas do mar,
batuíras do lagamar,
guaruçá das areias,
as marcas das maresias
e as escamas das
sereias.
Poetas conseguem ouvir
os sons das ondas do
mar,
mesmo morando longe
demais -
tipo em Minas Gerais;
ouvem os passos dos
pássaros sobre o telhado,
a conversa do vento
com as folhas das árvores,
o som da vida da
cachoeira;
escutam até mesmo a
pulsação
do coração da
bananeira.