sexta-feira, 20 de março de 2026

Inventário de meus avós maternos


Tem bananal que sobe e desce morros;

pomar de todas as frutas;

casa de telhas de barro feitas nas coxas;

sala com oratório da Mãezinha do Céu

e com chão assoalhado para dançar bailes;

rádio de ondas curtas pra pegar todas as emissoras do planeta

na antena de fio de cobre instalada sobre o telhado.

Na cozinha, tem farinha de mandioca no barril

e muitos quilos de sal

guardados sob o calor do fogão a lenha;

tem casa de farinha com roda de ralar, prensa de fuso,

cocho, gamelas de madeira e forno com tacho de cobre,

pra deixar a farinha torradinha,

farinha boa, farinha da terra.

No quintal, tem café secando ao sol;

peixes secando no jirau; 

dezenas de galinhas, patos e até perus.

Suíno não podia, porque era pecado

comer carne de porco na casa de meus avós.

Ingrediente secreto


Eu bem que tentei

Fazer um pirão de peixe

Igual ao de minha avó Martinha:

Usei o mesmo tempero,

O mesmo peixe correto,

Com a nossa farinha...

Só faltou aprender o bendito

Que Vovó costumava entoar

Enquanto mexia a panela,

Para o pirão não desandar.

Impressão

Céu azul

entre nuvens esfiapadas;

cerejeiras em flor

na paisagem espalhadas;

luzes e cores

em pinceladas entrelaçadas.

Desconfio que Van Gogh

quis aperfeiçoar 

no que Deus tanto caprichou

no momento de criar.

Historinha

 

Paulinha ficou encantada quando desenhei

o tubarão-martelo, o peixe-rei, o peixe-espada

e o peixe-lua rodeados de estrelas no fundo do mar.

E ela só ficou sabendo

que a imaginação ficou aquém da realidade

quando descobriu

que esses peixes existem de verdade.

História recente

 


Antigamente as crianças caiçaras tinham quintais

com bananeiras, laranjeiras, goiabeiras,

jabuticabeiras e muita caapoeira.

As crianças tinham espaço

pra jogar futebol,

pra empinar pipa,

pra fazer jogo de roda,

balanço e gangorra.

Tinham areia pra se sujar,

rio pra se lavar

e soltar barquinhos feitos em pau de caixeta.

O tempo passou rápido demais para aquela geração,

hoje seus filhos vivem apertados

em terrenos 10 x 30, em horizontes 10 x 30.

Nossa Senhora de Ubatuba

 

Quando, na opinião de Vovó Martinha,

eu alcancei inteligência,

ela me contou uma história maravilhosa

de flores que choveram do céu,

de uma panela de pirão

que alimentou uma multidão

e de crianças de pés descalços

que pisaram no reino dos céus.

Tudo isso sucedido no Sertão da Quina,

quando ainda era menina,

quando os caiçaras ainda pescavam

e as pessoas ainda rezavam.

História do marinheiro Benedito

 

Minha intimidade com o mar

começou na praia em que nasci,

no mergulho em que renasci,

na canoa de meu avô,

nos ofícios de pescador,

e fui ganhando confiança,

e fui vencendo distância,

e pesquei rente à costa,

e pesquei embarcado,

e fisguei quem me gosta

e também fui fisgado.

Mas quem há de enredar

um pescador escolado?

Adentrei o oceano,

naveguei em cabotagem,

ganhei muito dinheiro,

gastei tudo em bobagem.

Trabalhei em longo curso,

aportei até em Roterdão

e não consigo mais sossegar,

senti o gosto do mundo

meu destino é navegar.

Histórias do mar

 


 
O apóstolo São Pedro 
é protetor dos pescadores 
e dos pescados também. 
Quando é necessário 
dar um sossego 
para os bichinhos do mar, 
o Santo solta o arreio dos ventos 
e deixa a tempestade a uivar, 
de não sobrar uma canoa ao largo 
e nenhuma vela no horizonte, 
pois, se o pescador é valente, 
é, também, às ordens do céu, obediente. 

História do Mano Grande

 

Tia Ana da Fortaleza

contou-me que seu avô,

Manoel Alves Barreto,

conhecido por Mano Grande

da Praia Brava,

andava por todo lugar

e a fé testemunhava

com sua escritura sagrada,

até que em dia de pesca

sua fé foi provada

com a canoa emborcada

em pleno mar-virado.

Ele e João de Deus

acabaram arrastados

junto com a embarcação

para a morte no costão

da Praia da Caçandoca.

Foi aí que Mano Grande apelou

pra Nossa Senhora Aparecida,

que mandou um boto

que resgatou suas vidas,

ainda que meios rotos.

Depois, em trajes de pesca,

fizeram a prometida peregrinação

para Aparecida do Norte,

em agradecimento e devoção

à Santa que os livrou da morte.

História de ventos

 

Um dia, na capoeira lá de casa,

houve uma briga feia

entre as massas de ar,

a casa de farinha desabou,

foi a nocaute o bananal,

as aves ficaram arrepiadas,

e o gigante tarumã

por pouco não tombou.

Irremediavelmente perdida,

porque o vento levou,

ficou a camisa do Santos F. C.,

um regalo de meu amor.

Histórias de pescador


Vinte mil léguas submarinas,

A Ilha do Tesouro,

Robinson Crusoé,

Moby Dick,

Trabalhadores do Mar,

Os Lusíadas,

O Velho e o Mar

e nos diários de bordo

do piloto Nelson José,

acredite quem quiser.

Histórias de pescador

 


O pescador Benedito,

por ordem da medicina,

ficou fundeado em casa

por longas semanas de inverno

e começou a piorar

à medida que lá fora

o tempo principiava a melhorar.

E foi por teimosia

e marinheira intuição,

depois de uma prece a S. Pedro,

santo de sua devoção,

que mandou tirar as cracas

que iam tomando conta

de si e de sua embarcação,

pinchou fora os cataplasmas

e saiu para pescar.

A partir de então

viu sua saúde retornar.

História do pescador Tonico


 

Por ilusão de ótica

ou excesso de poesia,

Tio Tonico, por um momento,

pensou ter colhido a Lua

nas malhas do picaré. 

Histórias de céu, terra e mar

 

No dia que Tio Chico
chegou diante de São Pedro
não foi reconhecido
porque vestia fatiota de defunto.
- Ó, meu São Pedrinho,
que sua intercessão me salvou
na tormenta de 63,
me valei mais uma vez!
Sou eu, meu Santo,
de pescar de corrico,
de largar o espinhel,
de consertar um peixe
e de pescar no parcel!
Então São Pedro abriu a porta
porque para entrar no reino do Senhor
tem que ser igual uma criança,
tal qual o velho pescador.

História de Caronte

 

Antigamente havia só a trilha

que subia e descia

seis morros e seis praias

por sete quilômetros

de canseiras e de belezas

até atingir a Fortaleza.

Cargas grandes só pelo mar,

inclusive a última viagem

de quem cumpriu seu eito.

E foi assim que lá do alto da estrada,

Bito Celidônio gritou para saber

quem tinha falecido

e o canoeiro respondeu

que tinha sido o Bito Celidônio. 

Sinfonia das alturas


Nada de silêncio na Serra da Mantiqueira:

curicacas gritam o próprio nome,

maritacas disparam rajadas de barulho,

tucanos soam como dobradiças enferrujadas.

E há ruídos de ventos, gados que mugem,

trinados e gorjeios de passarinhos.

Nada de silêncio, mas a sinfonia ancestral

de celebração da vida natural.

Sensibilidade rústica

 

De manhã o vento sopra do mar;

nuvens escondem os altos das montanhas.

Há muita umidade no ar.

O roceiro sabe que vai chover;

faz uma prece de agradecimento a Deus.

Há muita humildade no ar.

quinta-feira, 19 de março de 2026

A linguagem dos bichos

 

Um pássaro avisa outro,

que informa a maritaca;

esta logo faz uma gritaria,

que alerta toda a criação.

Quem não entende pensa que é festa,

mas todo esse palavreado significa:

- Cuidado, tem homem na floresta!


Em São Luís do Maranhão


Eu vi uma casa vitimada pelo tempo,

disputada pelos herdeiros,

a derruir-se em telhas quebradas,

fragmentos de estuque e pau a pique.

No quintal cheio de mato,

as laranjeiras e goiabeiras teimam em ofertar

frutos para os fantasmas.


Umanità

 

Olha isso, Alfred Nobel: a sua dinamite

que fazia as pedras em pedacinhos,

foi modificada por um demente

para fazer o mesmo com a gente.

O avião de Santos Dumont,

feito para nos aproximar do céu,

foi municiado de bombas e metralhadoras

para precipitar pilotos no inferno.

E o drone, das úteis imagens aéreas

e serviços para a agricultura,

é usado hoje - ninguém merece! - 

para matar pessoas por GPS.